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4 de junho de 2013

De Profundis, Valsa Lenta

José Cardoso Pires é um nome maior das letras portuguesas e este pequeno livro é a prova disso mesmo. Cardoso Pires sofre um acidente vascular cerebral e tem aquilo que ele próprio chamou de "morte branca". Passado dois anos surge esta pérola com a descrição dessa mesma situação. Cardoso Pires ficou vivo mas não propriamente cá. As coisas passavam por ele como num sonho muito branco e brilhante. Objectos normais perderam o seu significado (foi apanhado várias vezes a pentear o cabelo com a escova dos dentes) e as pessoas queridas e próximas perderam-se na desmemória. As palavras saiam ininteligíveis, a escrita uns rabiscos. Tudo apontava, não para a morte, mas para o desaparecimento de uma grande mente.
O texto é fantástico, muito bem escrito (não se podia esperar menos) mas o mais importante é o facto de Cardoso Pires ter recuperado de uma condição que, normalmente, deixa uma pessoa vegetativa. Como diz outro Cardoso Pires, o médico, que faz o prefácio, o autor teve muita sorte, por um lado, e a zona afectada era mais "musculada" que no comum dos mortais, por outro. Também muito importante foi o facto de uma pessoa com o dom da palavra e da escrita conseguir recuperar o suficiente para este canto de cisne (foi o último trabalho de Cardoso Pires). Manuel Damásio, proeminente médico neuro-psiquiatra, referiu a importância desta pequena obra para o estudo dos mistérios do cérebro na medida em que Cardoso Pires não podia ser mais eloquente.
Lê-se de um fôlego e eu não podia deixar de recomendar.

23 de novembro de 2012

The Electric Kool-Aid Acid Test

Tom Wolfe decidiu sair de Nova York e ir até São Francisco para saber exatamente o que andavam a preparar os Merry Pranksters, uma comuna artística psicadélica, cujo o guru era Ken Kesey.
Ken ganhou uma bolsa para um curso de pós graduação em escrita criativa, foi um desportista quase olímpico (uma lesão no ombro impediu-o de ir aos Jogos) e decidiu fazer parte do projeto da C.I.A., MKUltra, em que os voluntários eram expostos às mais mais variadas drogas psicadélicas (L.S.D., D.M.T., etc) por forma a estudar os efeitos das mesmas no ser humano. Apesar da C.I.A. ter como objetivo fazer o Super Soldado (seguindo a ideia alemã), os resultados foram fracos nesse campo, mas serviram bem a C.I.A. na elaboração do seu manual de interrogatório/tortura. Já a Ken, as drogas psicadélicas, serviram para abrir o espírito de tal maneira que este decide arranjar um part time no turno noturno de uma instituição psiquiátrica para observar os pacientes e ter acesso à reserva de L.S.D. do hospital. Desta "visita de estudo" surge a obra prima, Voando Sobre um Ninho de Cucos, (irei falar dele proximamente), que catapulta o jovem Kesey para o estrelato. Kesey compra então uma quinta em La Honda, perto de São Francisco, onde se começam a juntar os seus amigos e mais alguns desconhecidos, formando uma comuna ad hoc em que as pessoas eram encorajadas a expandir a sua mente, especialmente com o uso de L.S.D. O livro também descreve as duas viagens de autocarro (o Further) a Nova York e ao México com Neal Cassady, herói da Beat Generation, ao volante.
Tom Wolfe é um grande artista porque consegue com a sua escrita toda a loucura e desconexão de uma trip de ácido, mas ao mesmo tempo manter o leitor na história através de um fio condutor que deve tudo ao jornalismo, como uma crónica dos eventos de um manicómio. A escrita de Tom Wolfe faz-me lembrar o Gonzo Journalism de um contemporâneo seu, Hunter S. Thompson. Um grande livro em que mostra a ascensão e queda do movimento hippie, vista por dentro.

8 de outubro de 2012

Time Out Rome

Bendito Time Out. Já para Barcelona tinha escolhido o livro desta série e ainda bem que o voltei a fazer. É que além de a informação estar toda certa e os mapas serem bem legíveis, a organização do livro está perfeita. Roma foi dividida por zonas históricas e cada uma delas tem entradas com os pontos de interesse. Até aqui tudo normal, igual a tantos outros guias. O que me agradou especialmente foram as dicas dadas pelos autores dos textos. Por exemplo: "não compre o bilhete no Coliseu que as filas são muito grandes, compre na entrada do Palatino, que não tem lá ninguém e o bilhete dá depois para o Coliseu" ou então "marque a entrada do Museu do Vaticano para quarta feira às 10:00 que é a altura que o Papa esta a falar na Praça de S. Pedro".
O resultado foi poupar umas horas valentes em filas. No Vaticano podia ter chegado lá sem bilhete (cheguei às 10:30) que não demorava mais de vinte minutos. No Coliseu foi só entrar, enquanto que o resto do povo esperava uma boa horinha.
Recomendo a todos os guias Time Out. São "da cena" sem serem demasiado "freakolé".

14 de agosto de 2012

The Shock Doctrine

Naomi Klein tem as suas origens numa família com pedigree activista: os pais mudaram-se para o Canadá em 67, por causa das suas convicções contra a guerra do Vietname. A mãe faz documentários e o pai é médico membro da Physicians for Social Responsibility, uma organização médica que se dedica a alertar e esclarecer o grande público acerca dos efeitos nocivos do nuclear e das toxinas no corpo humano. Já os avós paternos tinham-se oposto ao pacto Molotov-Ribbentrop e abandonado o comunismo em 1956. O avô paterno, durante a greve dos animadores da Disney, foi despedido e viu-se forçado a trabalhar na estiva.
Apesar de toda esta genealogia de esquerda (ou talvez por isso mesmo), Klein passou os seus anos de adolescente fechada em centros comerciais, obcecada com roupas de marca. Sentia-se mal por ter uma mãe tão publicamente feminista.
A sua consciência política foi despertada por dois eventos: a doença grave de sua mãe aos 17 e um massacre contra estudantes femininas na École Polytechnique, em Montreal.
Mas agora o livro. Klein começa por introduzir duas personagens: Milton Friedman , um economista, e Ewen Cameron, um médico psiquiatra.
O que é que têm em comum um economista e um psiquiatra?
Ewen Cameron é famoso pela sua participação no projeto da CIA, MK-ULTRA, no qual se estudava como alterar o comportamento do ser humano, usando recursos como as drogas (sobretudo LSD), privação sensorial, violações verbais e físicas e, sobretudo, tortura. Cameron achava que se devia "limpar" a mente de um paciente com problemas (às vezes tão simples como uma depressão pós-parto) para poder começar de novo. Como tal é impossível, Cameron aplicou os tratamentos com mais intensidade, com especial ênfase para os electrochoques, o seu favorito, em alguns pacientes com voltagens quarenta vezes superiores aos valores máximos recomendados por outros médicos da altura. Apesar de falhar com todos os seus pacientes, deixando-os a todos pior do que estavam antes dos tratamentos (alguns pacientes regrediram ao ponto de confundirem os médicos com os pais ou não serem capazes de fazer as suas necessidades fisiológicas), a C.I.A. utilizou os seus estudos para elaborar o seu programa de tortura psicológica de dois estágios (que consistia basicamente em primeiro desorientar o interrogado com privação de sono e/ou sensorial e também com humilhação de cariz sexual. Assim que o indivíduo está desorientado passa-se a submetê-lo a danos autoinfligidos, como por exemplo manter os braços elevados durante muito tempo, por forma a que o individuo transfira a culpa do seu sofrimento para si e fique mais receptivo ao interrogador uma vez que este pode acabar com as suas dores - muito mais bem explicado aqui), ainda há bem pouco tempo usado no Iraque. É interessante ver a ligação entre este livro e o Homens Que Matam Cabras só com o Olhar.
Milton Friedman foi um Nobel da Economia proeminente da Escola de Chicago que, nos anos cinquenta (por oposição aos Keynesianos que advogavam que o estado deve intervir na economia, escola predominante no Estados Unidos da Grande Depressão até 1973), diz que o Estado deve ter uma intervenção mínima na economia, privatizando sectores como a Educação, Saúde e grande parte do Exército. Resumindo, a única função do Estado deverá ser "(...) to protect our freedom both from enemies outside our gates and from our fellow-citizens: to preserve law and order, to enforce private contracts, to foster competitive markets" ("(...) proteger a nossa liberdade tanto dos inimigos externos como dos nossos concidadãos: preservar a lei e a ordem, garantir os contratos privados e fomentar mercados competitivos").
Estávamos no pico da Guerra Fria e esta teoria era o oposto do Comunismo vigente na altura, em que o Estado controlava tudo.
O pior é que os Poderes Económicos viram nesta teoria a maneira ideal de redireccionar os capitais que o Estado gasta na Saúde, Educação, Exército, Saneamento e vários serviços normalmente à disposição do cidadão, para os seus bolsos. Só existe um problema: o Povo. A aplicação prática desta teoria implica a perda de quase todos os direitos e regalias conquistadas, algumas à custa de sangue, pelos cidadãos.
Solução de Friedman? Os países e os povos tem que ser submetidos a um "shock treatment" ("tratamento de choque") social e económico para criar um "blank state" (alguma semelhança com os tratamentos do Ewen Cameron é pura coincidência... NOT!!!). O primeiro local em que foi experimentado este tratamento de choque? No cone sul-americano, claro está, com o apoio dos Estados Unidos às juntas militares ditatoriais, com início no Chile com o derrube de Salvador Allende por Pinochet. E quem eram os amigos económicos de Pinochet? Os Chicago Boys, claro, com Friedman à cabeça, que foi pessoalmente aconselhar Pinochet sobre como implementar as suas ideias de "mercado livre". O resultado foi uma ditadura militar que durou de 1973 a 1990.
A Escola de Chicago não ficou por aí. Brasil, Argentina, Bolívia, Estados Unidos (com Reagan), Reino Unido (com Thatcher), Polónia, Rússia, Iraque, Afeganistão, Malásia, China (o evento na Praça Tian'anmen aconteceu exactamente quando o Comité Central estava a aplicar as medidas de Friedman que, meses antes, tinha visitado a China), Nova Orleães e Sri Lanka.
Claro que, com o passar dos anos, os métodos de implementação foram-se alterando à medida que os direitos humanos iam revelando as atrocidades cometidas nos países sob o jugo dos ditadores. Alguns exemplos:
No caso do Iraque (um dos países árabes mais desenvolvidos, com maior grau de instrução) invadiram, destruíram e depois emprestaram dinheiro para a reconstrução com a condição de o Estado iraquiano alienar todo o seu património (leia-se petróleo), implementar um sistema de taxa de imposto única (15%) e abrir as portas ao investimento estrangeiro. No caso da Rússia correu um pouco mal para os investidores estrangeiros porque os oligarcas russos ficaram com tudo para eles (o mesmo se passou na China). No caso de Nova Orleães (uma das regiões mais pobres do Estados Unidos) foi preciso o furacão Katrina deixar os cidadãos em estado de choque para o governo americano poder acabar com o ensino público (conselho dado pelo próprio Friedman na última publicação em vida). No Sri Lanka, após o Tsunami que abalou a Ásia, o FMI exigiu, para emprestar dinheiro, que as praias fossem vendidas às grandes cadeias de hotéis de luxo, vedando o acesso às praias à população de pescadores desalojadas. Quando os pescadores saíram do choque do Tsunami, os seus locais de nascimento, as suas raízes, estavam vedados e com guardas armados.
Friedman disse que, no evento de uma crise, real ou percecionada, bastava as suas ideias estarem "perdidas pelo chão" para estas serem "apanhadas". O facto de o FMI e o Banco Mundial estarem cheios de ex-alunos seus ajuda a forçar as medidas quando os países estão mais fragilizados e o povo mais desatento devido a problemas mais graves e prementes.
Os casos de Portugal, Grécia, Espanha, Itália, não vos fazem lembrar nada? Primeiro as agências de rating (americanas e cheias de Friedmanites) dizem que os países não valem nada (crise verdadeira ou percecionada?) e depois o FMI empresta dinheiro sob condições draconianas que implicam a destruição de todo o património do estado e do estado social.
Resumindo, Klein diz que "(...) what we have been living for three decades is frontier capitalism, with the frontier constantly shifting location from crisis to crisis, moving on as soon as the law catches up (...)" ("(...) o que temos vivido nas últimas três décadas é um capitalismo de fronteira, com a fronteira a ser constantemente mudada de uma crise para outra, partindo assim que a Lei chega (...)") e que "(...) Under Chicago School economics, the state acts as the colonial frontier, which corporate conquistadors pillage with the same ruthless determination and energy as their predecessors showed when they hauled home the gold and silver of the Andes (...)" ("(...) Segundo a teoria económica da Escola de Chicago, o Estado age como a fronteira colonial, em que as Corporações Conquistadoras pilham com a mesma implacável determinação e energia que os seus predecessores mostraram quando rapinaram o ouro e a prata dos Andes (...)").
Por favor abram os olhos!!!

4 de agosto de 2012

Dia D

Que seca. Não me interpretem mal: até li bem depressa este calhamaço de seiscentas e cinco páginas e uns trocos. Mas o conteúdo, que maçudo... O Montgomery isto, Patton aquilo. As intrigazinhas de poder entre ingleses e americanos, exércitos e força aérea e os homens a morrerem no terreno. Quero lá saber que a "1ª Divisão Blindada polaca recebeu ordens para avançar sobre Chambois" ou que "a 90ª Divisão americana, (...) teve uma desagradável surpresa quando a divisão Das Reich e o que restava da 17ª Divisão Panzergrenadier SS atacou subitamente (...)".
Antony Beevor até faz um bom trabalho ao disfarçar uma série de dados fastidioso com histórias pessoais de soldados, algumas bem tocantes como "(...) ele gritou por um médico. Um homem do corpo médico avançou rapidamente para o ajudar e também foi alvejado. O socorrista ficou junto ao soldado e ambos ficaram a gritar até morrerem (...)" ou "(...) por outras palavras, nós éramos suficientemente bons para ficar dentro do cerco. As SS olham pelos seus (...)".
Tanto quanto eu posso afirmar o conteúdo é correcto (não sendo uma autoridade) mas eu prefiro um livro sobre o que se passou com os soldados no terreno a um livro histórico sobre os macro acontecimentos.

3 de agosto de 2012

Guevara - Antologia

A primeira vez que li este livro tinha uns dezassete anos e tenho que admitir que achei muito mais piada na altura.
O Comunismo não é resposta. Tem que haver outra solução de esquerda porque senão estamos lixados. Por exemplo, no texto "O exemplo cubano: caso excepcional ou vanguarda da luta contra o imperialismo", Guevara começa por elogiar Fidel Castro, pessoa que transformou a Revolução Cubana numa ditadura do proletariado. A seguir refere o desejo do campesinato de uma reforma agrária que lhe permitisse possuir um pouco de terra e destruísse os latifúndios... Bem agora já não há campesinato porque ninguém quer vergar a mola no campo. Ou ainda que "(...) nos parece improvável é que as forças armadas aceitem profundas reformas sociais (...)"... A nossa revolução provou o contrário.
O que mais me interessou foi o capítulo "A guerra de guerrilha", um manual prático, criado a partir das suas experiências, mas, infelizmente, é composto apenas por excertos.
Qualquer das formas tiro o chapéu aos autores da selecção e tradução (Adriano de Carvalho e João Bernardo) e ao editor (da Novo Rumo) por lançarem este livro em plena ditadura, no ano de mil, novecentos e sessenta e sete.
Guevara presidiu vários tribunais revolucionários e com isso manchou a sua imagem com várias penas de morte, talvez escusadas, em nome do povo e da revolução. Mas o seu coração era bem intencionado e por isso pagou com a vida.

27 de julho de 2012

Street Art

O meu amigo Carlos emprestou-me este livro para eu tentar entender um pouco mais do que se passa nas paredes de Lisboa e do mundo. Devo dizer que aprendi muita coisa e, principalmente, fiquei a conhecer os nomes e as obras mais significativas dos artistas mais conceituados do meio. O problema é que, como em todos os livros teóricos sobre a arte, a linguagem usada, apesar de simples e bem escrita, é demasiado críptica e orientada para quem já tem bastantes conceitos sobre estética e história da arte. Como bom ensaio que é tem tudo: enquadramento histórico, os primórdios do movimento e os diversos degraus que a Street Art foi subindo até chegar ao que é hoje. Imaginem uma tese de doutoramento traduzida para o comum dos mortais mas por alguém que nunca escreveu nada para o comum dos mortais. Estão a ver?
Penso que é um bom livro (eu gostei de ler) mas que exige que o leitor já saiba bastante da definição do conceito de Arte. Como o meu conceito de Arte não passa de "gosto, não gosto", fiquei de fora de muitas das ideias e dos conceitos que o autor escreve.

22 de abril de 2012

Homens Que Matam Cabras só com o Olhar

Jon Ronson é um jornalista galês que decidiu investigar as explorações que o exército americano fez no campo da New Age e do paranormal, no fim dos anos 70, início dos 80. Até aqui tudo (mais ou menos) bem... Não é de agora que os grandes exércitos, na sua procura do super soldado, "apelam" para poderes superiores. Já Hitler tinha uma divisão que estudava o paranormal (mas também novos métodos para exterminar, extirpar, torturar, humilhar todos os opositores e mais alguns) para tentar desencantar uma vantagem sobre o adversário.
No fim do trauma do Vietname as forças armadas americanas estavam deprimidas, quer humanamente, quer como instituição. Era necessário fazer algo que, por um lado, devolvesse o amor próprio ao militar americano e que, por outro, tornasse os Estados Unidos na super potência que parecia ser, mas que falhou demonstrar no terreno do Vietname.
Estão assim abertas as portas para que a insanidade se instale.
LTC Jim Channon (para quem não sabe LTC quer dizer Lieutenant Colonel - Tenente Coronel... bastante alto na cadeia, pode-se dizer), ao sair de um helicóptero em pleno combate, verifica que os seus homens, todos novatos, falham propositadamente o alvo a abater (no caso, uma mulher vietcong altamente motivada). Devido a essa ineficácia, Channon, é baleado no peito e, nesse momento, tem uma epifania. Se os soldados sentem uma força dentro deles que os impede de matar, porque não usar essa força para benefício do Grande Exército Americano? Com estes argumentos, Jim Channon, convence o Estado Maior a pagar-lhe uma "visita de estudo" a todos os movimentos New Age que a costa Oeste dos Estados Unidos produziu. Se somarmos a isto todas as drogas possíveis e imagináveis, o que obtemos é o First Earth Battalion (juro que não estou a brincar), completo com um manual de 125 páginas! Eu não consigo sequer começar a descrever as coisas que eles tentaram (há um dos soldados que afirma que matou uma cabra só de olhar para ela, daí o título do livro) mas o que é facto é que alguns dos procedimentos do manual foram usadas na guerra do golfo, pelo Bush, como forma de torturar pobres desgraçados...
Resumindo: um livro obrigatório! Hunter S. Thomson diria: "Pure Gonzo Journalism"!
O porquê do Bush ter usado no Iraque tais técnicas de tortura é tema para o meu próximo livro, The Shock Doctrine, uma autêntica bomba!!!

10 de fevereiro de 2012

Crimes Exemplares

Quando uma grande amiga me aconselhou a ler este pequeno livro, fiquei imensamente desiludido de ter que lhe dizer que já o tinha em casa. Prometi-lhe que ia reler e em boa hora o fiz porque esta obra é pura e simplesmente genial. Max Aub, filho de um Alemão e de uma Judia Francesa, teve uma vida atribulada em Espanha, durante a guerra civil, e em França, durante a segunda grande guerra, o que o fez radicar-se com a sua família no México, onde conheceu Luis Buñuel, entre outros. Ao longo do seu percurso de vida foi recolhendo relatos de homicídios perpetrados em grande maioria por gente "normal". Donas de casa, barbeiros, utentes de transportes públicos, pacientes, médicos, todos caminham à beira do abismo, a um simples passo da desgraça. "Matei-o porque tinha mais força do que eu" e "Matei-o porque tinha mais força do que ele" revela uma espécie humana com grandes dificuldades na comunicação, sem conseguir gerir o stress de forma adequada. Assusta-me a crise porque é um factor de stress muito forte e as pessoas estão perto do limite ("Don't push me 'cause i'm close to the edge, i'm trying not to loose my head"). Como sempre, a Antígona a não desiludir com este livro. E para terminar, o meu favorito: "Matei-o porque não pensava como eu"!!!

29 de agosto de 2011

Confiança e Medo na Cidade

Zygmunt Bauman, sociólogo polaco radicado em Inglaterra, vai ao osso neste livro, relacionando a arquitetura e a organização das cidades, em que cada vez mais as pessoas vivem ou querem viver em bunkers (condomínios fechados ou mansões repletas de segurança), com a cultura do medo em que vivemos hoje em dia. Bauman afirma que o mal que corrói o mundo, nesta era de individualismo, é a mixofobia, o medo de lidar com pessoas de culturas e meios diferentes dos nossos, e é na cidade que esse problema se agudiza. Se nos anos 70 as pessoas que chegavam à cidade eram as pessoas do campo, mas com a mesma nacionalidade e, mais ou menos, com os mesmo costumes; agora quem chega são hordas de estrangeiros que trazem consigo novas línguas e culturas que nos são estranhas e, como tudo o que é estranho, provocam-nos medo. Cada vez mais os que podem se isolam do mundo exterior através de condomínios fechados, SUV, colégios particulares, etc propagando assim este ciclo vicioso.
Contudo, é também na cidade que se encontra a solução - a mixofilia (obtenção de prazer através da experiência  de convivência com estranhos). Se há pessoas que se fecham, outras há que procuram novos horizontes na diversidade que a cidade propõe. Bauman afirma que a solução dos problemas da modernidade passa pela promoção da mixofilia, sendo que os espaços públicos da cidade (as praças, os jardins, as ruas) são o local ideal para o fazer, visto que é nestes espaços que os estranhos se cruzam e podem partilhar as suas experiências, deixando de ser estranhos.
Em Lisboa parece-me que estamos a caminhar na mesma direção das grandes cidades do mundo. O bairrismo está a desaparecer, levando consigo os tempos em que todos os vizinhos se conheciam e os miúdos podiam jogar à bola na rua. As filosofias dos subúrbios (o total desconhecimento de quem mora no prédio em que se habita, quanto mais no bairro circundante, pessoas que partilham o elevador sem sequer dizer bom dia) avançam para dentro das cidades à medida que o dinheiro vai chegando para isso...
Recomendo, vivamente, a leitura deste pequeno grande livro.

4 de julho de 2011

Manual das Finanças Pessoais

Quando comprei este livro na feira não estava à espera de gostar tanto. Os autores, João Pessoa Jorge, Licenciado em Gestão, e Ricardo Ferreira, Licenciado em Economia,  escrevem de uma forma simples e clara e desmistificam as finanças para o comum dos mortais. O livro segue uma ordem lógica, começando primeiro pelo controlo de gastos, pelo desendividamento, pelo investimento até a independência financeira. Quem ainda acha que investir na bolsa é reservado apenas a grandes carolas da alta finança tem que ler este manual.
Muitas das técnicas de controlo das despesas eu já sabia (sendo a mais importante o balanço orçamental, ou seja, anotar todas as despesas e todos os ganhos SEMPRE!!!. Para tal eu uso o programa GnuCash que é gratuito e tem todas as funções necessárias para controlar um orçamento pessoal) e muitas das questões referidas no capítulo "O negócio bancário" também. Gostei particularmente do cálculo do Salário Horário Real no qual se reduz as despesas fixas do salário líquido por forma a saber o quanto se ganha realmente por hora.
Onde o meu interesse realmente começou foi na segunda parte do livro, "Os básicos do investimento". Os conceitos básicos de risco, retorno, liquidez, etc são todos cobertos e, mais importante, como começar uma carteira de ativos (com explicação do que são esses ativos: obrigações, ações, fundos de investimento, etc) para um determinado objetivo (reforma, faculdade dos filhos, etc). Muito bom!!! Aconselho a toda a gente agora que a crise vai apertar (mais ainda...).

22 de junho de 2011

Um Mundo Sem Regras

Amin Maalouf, um autor nascido no Líbano, radicado em Paris, escreve este livro para tentar dar um pouco de luz sobre os problemas do médio oriente, problemas esses que tiveram como consequência o fanatismo islâmico. Com uma análise séria e de estilo jornalístico, com uma grande bibliografia, Maalouf segue pela história recente dos países islâmicos do médio oriente, desde a 2ª Guerra Mundial, altura em que as grandes potências colonizadoras "largaram" as suas colónias ao seu destino e todos os problemas começaram (ou talvez deva dizer, vieram à superfície) até aos dias de hoje.
Do lado negativo devo dizer que o texto dá a entender que Maalouf acredita que os atentados ligados ao terrorismo (nomeadamente o 11 de Setembro) foram efectuados servindo os interesses islâmicos e não os interesses Americanos, algo que eu acho altamente improvável senão totalmente impossível e que um jornalista avisado deveria, pelo menos, questionar...
Por fim são apontados os problemas do mundo em geral (o desregramento intelectual, económico, financeiro, climático) e apontadas soluções ("(...) Por vezes, fala-se da crise moral do nosso tempo em termos de «perda de referências» ou de «perda de sentido»; (...) Do meu ponto de vista não se trata de «reencontrar», mas de inventar. (...) Do meu ponto de vista, sair «por cima» do desregramento que afecta o mundo exige a adopção de uma escala de valores baseada no primado da cultura, direi mesmo baseado na salvação pela cultura. (...)") se bem que, apesar de verdadeiras, talvez sejam um pouco ingénuas ("(...) já não podemos permitir-nos conhecer «os outros» de maneira aproximativa, superficial, grosseira. Temos necessidade de conhecê-los com subtileza, de perto, direi mesmo na sua intimidade. O que só pode fazer-se através da sua cultura. E em primeiro lugar através da sua literatura. A intimidade de um povo é a sua literatura. (...)") e impraticáveis.
Qualquer das formas é um livro muito interessante quer por permitir aprofundar os porquês do extremismo do Islão, quer por conter algumas ideias muito interessantes e inéditas para mim (por exemplo "(...) A desconfiança que prevalece na tradição muçulmana, como na tradição protestante, em relação a uma autoridade religiosa centralizadora é perfeitamente legítima e muito democrática na sua inspiração; mas tem um efeito secundário calamitoso: sem esta insuportável autoridade centralizadora nenhum progresso é inscrito de modo irreversível. (...)".

6 de junho de 2011

A Revolução Electrónica

William S. Burroughs propõe neste ensaio que "word is virus" - a palavra é um vírus - no sentido literal ((...) Falei frequentemente da palavra e da imagem como vírus ou agindo como vírus, e não é uma comparação alegórica. (...)) mas parece-me que Burroughs não sabia nada acerca do que é um vírus nem do que é a evolução das espécies. Propõe então que um vírus se alojou na garganta dos macacos e tornou-se benéfico ou simbiótico em vez de parasitário. Tal é impossível à luz do que se sabe hoje da natureza viral. O que é certo é que W. B. chega a conclusões verdadeiras através de premissas falsas (como tantas vezes acontece na ciência). A título de  exemplo, se se colocar gravações sonoras de motins numa manifestação ela deixará de ser pacífica rapidamente. Tais técnicas já foram usadas com eficácia por agitadores quer governamentais quer subversivos. Burroughs também propõe que a palavra escrita é aquilo que distingue o ser humano de outros seres e que através dela é possível transformar as gerações futuras. Não concordo que a escrita seja aquilo que nos diferencia dos outros seres mas sem dúvida que deixa uma marca no futuro da humanidade. Escrito com a técnica de cut-ups (Burroughs retira citações de várias fontes, sem dizer a sua origem, misturando com texto da sua autoria), algo próximo das colagens nas artes plásticas, o texto é de fácil leitura mas difícil de decifrar o seu verdadeiro conteúdo.
Um livro muito interessante mas que deverá ser lido mais que uma vez para ser completamente digerido.

15 de fevereiro de 2011

A Sangue Frio

No passado dia 1 acabei este A Sangue Frio de Truman Capote. Supostamente, é o primeiro livro do género Não Ficção e o primeiro de True Crime, mas há quem discorde... Confusões à parte, o que é certo é que este livro é uma obra prima. Aquilo que começa por ser uma crónica massuda de uma família do interior dos Estado Unidos e de dois bandidos de pé de chinelo acaba por se revelar uma profunda reflexão sobre a violência nos Estados Unidos e no ser humano em geral... Se no início não há qualquer dúvida de que o crime foi bárbaro e hediondo e que os assassinos deviam ser pendurados pelo pescoço (como foram), no fim a sensação que fica é que todos são vítimas: a família Clutter e os assassinos, Perry Smith e Richard Hickock.
Capote, após 8000 páginas de notas e quase 6 anos de investigação, consegue fazer com que toda narrativa "salte" cá para fora, desenrolando-se na imaginação do leitor como se este tivesse presenciado os acontecimentos. E no fim não consegui deixar de me sentir culpado pelos acontecimentos de Holcomb...
A tradução da D. Quixote está muito boa e consegue manter todo o ritmo que Capote imprimiu ao seu original. Um livro fantástico que recomendo a toda a gente!