25 de julho de 2013

The Book of Five Rings

Miyamoto Musashi foi um dos maiores espadachins da história, senão mesmo o maior. Oitenta duelos individuais, sem uma única derrota, o primeiro aos treze anos e o último por volta dos trinta anos, e seis batalhas, atestam bem as suas capacidades com a espada e como estratega. No final da sua vida, recolheu-se numa caverna e ditou este livro, o manual para a sua escola, Niten Ichi-ryú (Escola da Estratégia dos Dois Céus como Um, aproximadamente), que se destacava das outras em voga pelo uso de duas espadas (a katana e o wakizashi) em simultâneo ou, como outros estudiosos afirmam, estar pronto a usar as duas espadas, em qualquer mão.
Muito mais sobre a conduta a usar perante um combate ou confronto (e para Musashi, perante a vida) do que propriamente as instruções de como usar correctamente uma katana (essas instruções foram passadas para os seus discípulos), Go Rin No Sho, um manual de artes marciais Zen, tornou-se um livro indispensável para todos os gestores de topo que queiram aprofundar os seus conhecimentos em conflitos humanos.
Esta edição em particular está ilustrada com pinturas, caligrafias, katanas e outras coisas, de rara beleza.
Recomendo qualquer pessoa que tenha o mínimo interesse pelo Japão a ler.

4 de junho de 2013

De Profundis, Valsa Lenta

José Cardoso Pires é um nome maior das letras portuguesas e este pequeno livro é a prova disso mesmo. Cardoso Pires sofre um acidente vascular cerebral e tem aquilo que ele próprio chamou de "morte branca". Passado dois anos surge esta pérola com a descrição dessa mesma situação. Cardoso Pires ficou vivo mas não propriamente cá. As coisas passavam por ele como num sonho muito branco e brilhante. Objectos normais perderam o seu significado (foi apanhado várias vezes a pentear o cabelo com a escova dos dentes) e as pessoas queridas e próximas perderam-se na desmemória. As palavras saiam ininteligíveis, a escrita uns rabiscos. Tudo apontava, não para a morte, mas para o desaparecimento de uma grande mente.
O texto é fantástico, muito bem escrito (não se podia esperar menos) mas o mais importante é o facto de Cardoso Pires ter recuperado de uma condição que, normalmente, deixa uma pessoa vegetativa. Como diz outro Cardoso Pires, o médico, que faz o prefácio, o autor teve muita sorte, por um lado, e a zona afectada era mais "musculada" que no comum dos mortais, por outro. Também muito importante foi o facto de uma pessoa com o dom da palavra e da escrita conseguir recuperar o suficiente para este canto de cisne (foi o último trabalho de Cardoso Pires). Manuel Damásio, proeminente médico neuro-psiquiatra, referiu a importância desta pequena obra para o estudo dos mistérios do cérebro na medida em que Cardoso Pires não podia ser mais eloquente.
Lê-se de um fôlego e eu não podia deixar de recomendar.

A Dance With Dragons

Desculpem lá, mas estou farto! Martin tem tantas pontas soltas que não sabe para onde se virar. Não vejo o fim em mais dois volumes. As personagens estão cada vez mais embrulhadas no enredo sem um fim à vista. Algumas nem são faladas (por exemplo o que passa com Rickon? Nem uma linha num volume de novecentas páginas?). O texto continua a ser muito bem escrito, sem qualquer dúvida, mas a novidade (apesar de ter sido a primeira vez que li este volume) foi-se. Os únicos momentos em que fui realmente surpreendido foi quando Martin mata uma das personagens principais, quase mesmo no fim do livro, só para o leitor ter uma razão para comprar o próximo volume. Esta série está-me a fazer lembrar o Eragon, que começou de forma excelente e que a meio do terceiro volume (que devia ser o último) começa a engonhar, a engonhar, até que no fim aparece "continua no próximo volume". Talvez aqui no A Dance With Dragons seja ao contrário: no início é a engonhar, a engonhar e no fim tudo acontece de repente. Na altura em que estamos interessados, aparece "Epílogo".
Quanto à história, as coisas vão avançando com maus a ficarem bons, bons a ficarem maus e as personagens que mais gostamos a morrerem... Não foi assim que começou? Cinco volumes de novecentas páginas para a Daenerys voar o Drogon? Esqueçam lá isso e leiam a saga de Earthsea, da Ursula Le Guin, ou o Elric de Melniboné, do Michael Moorcock.

3 de junho de 2013

A Feast For Crows

Quando Martin começou a escrever este livro tinha ideia em acabar a série em cinco volumes mas a história alongou-se, fazendo com que o conteúdo de A Feast For Crows, seja acompanhado por A Dance With Dragons, cujas histórias correm em paralelo, com um conjunto de personagens diferentes para cada livro.
O livro sofre com a ambição desmedida de Martin. Com o número de personagens e eventos que se sucedem em catadupa, o texto começa a arrastar-se e a perder aquele ritmo alucinante dos primeiros volumes. Não que o texto seja mal elaborado, antes pelo contrário. Não é no ritmo da escrita que está o pecado mas sim no ritmo da história, que se arrasta penosamente.
Cersei tem finalmente o poder absoluto mas a arte da intriga é muito diferente da arte de governar e o seu poder escapa-lhe como areia das suas mãos. Para piorar as coisas, após alguns desentendimentos, envia o irmão Jaime para resolver os problemas nas Riverlands, último bastião de apoio a Robb Stark. Especial atenção neste livro têm Dorne e as Iron Islands, com as respectivas famílias líder a tentarem chegar a Daenerys, considerada por alguns a legítima herdeira do Iron Throne.
Enfim, para mim a série está a perder qualidades e não aguenta muito bem ser lida segunda vez (ao contrário do Tolkien, da Ursula Le Guin ou do Michael Moorcock), mas vamos lá ver como sai o próximo.

30 de maio de 2013

A Storm of Swords

A Guerra dos Cinco Reis continua em força e Catelyn Stark comete uma traição terrível por amor às filhas, que julga estarem em posse de Cersei Lannister, em Kings Landing. Por causa desta traição, Robb Stark perde o apoio de alguns dos seus aliados, ficando numa posição ainda mais delicada. Para cúmulo, anuncia que se casou com Jeyne Westerling, quebrando o pacto que tinha com os Frey, no qual Robb comprometera-se a casar com a filha de Walder Frey, Senhor das Gémeas, duas fortificações iguais em cada lado do Rio Tridente. Entretanto os Greyjoy conseguem conquistar o Norte e Winterfell.
Arya Stark encontra-se com a Brotherhood Without Banners, chefiadas por Lord Beric Dondarrion, que tinha sido enviado por Ned Stark para acabar com a pilhagem Lannister nas terras do Tridente. Após algumas aventura, Sandor Clegane, o Cão, rapta Arya para tentar entregá-la à sua mãe, em troca de um resgate. Quando chegam ao seu destino, as Gémeas, o bastião da família Frey, algo está a correr muito mal. O Cão sente o cheiro a sangue e salva Arya, contra sua vontade, de um destino terrível. O Cão fere-se num combate e Arya abandona-o à sua sorte seguindo depois para a cidade de Braavos onde procura tornar-se uma Assassina Sem Cara.
Entretanto, em King's Landing, no rescaldo da Batalha do Blackwater, Joffrey desfaz o seu noivado com Sansa Stark para se casar com Margery Tyrell, cujo Pai salvou a cidade da fúria de Stannis Baratheon que, depois da derrota, volta com o rabo entre as pernas para Dragonstone, a sua praça forte.
No casamento Joffrey morre envenenado e Cersei acusa seu irmão Tyrion de ter assassinado o sobrinho. As coisas estão muito más para Tyrion, com Cersei a arranjar testemunhas de acusação em cada esquina. Mais uma vez Tyrion pede um julgamento por combate que o seu campeão, o Príncipe Oberyn Martell de Dorne, quase que vence, mas no fim, quando Tyrion parece condenado, seu irmão Jaime, que nunca acreditou na culpa de Tyrion, liberta-o com a ajuda de Varys, o Senhor das Aranhas, nome dado ao chefe da espionagem do Rei.
Muito mais se passa no mundo, principalmente na Muralha, onde John Snow mete-se em grandes alhadas com os Wildlings e acaba Lord of The Night Watch.
O epílogo do livro reserva uma grande surpresa...

7 de março de 2013

A Clash of Kings

Acabei o segundo volume da saga A Song of Fire and Ice de George R. R. Martin, A Clash of Kings e devo dizer que há uma melhoria em relação ao primeiro livro. Cada vez há mais personagens a interagirem umas com as outras e as decisões que são tomadas afetam todo o mundo de Westeros. Quando o Rei Robert morre, problemas de sucessão se levantam, o que lança os Sete Reinos na guerra civil. Reis aparecem como cogumelos, tentando assegurar o Iron Throne. Joffrey Baratheon, Stannis Baratheon e Renly Baratheon, filho mais velho, irmão mais velho e irmão mais novo, respetivamente, do falecido Rei, reclamam o trono pelas suas, supostas, ligações familiares ao defunto, Robert Stark proclama-se Rei do Norte devido aos maus tratos a que o seu Pai foi submetido pelo Rei Joffrey, Balon Greyjoy proclama-se Rei das Iron Islands e ataca toda a costa Oeste do Norte.
Entretanto, na muralha, os Wildlings (humanos que se dizem livres e que vivem a Norte da muralha) estão a juntar-se sob o comando de um único homem, Mance Rayder, que se intitula Rei-para-além-da-muralha, com o objetivo de invadir o Sul, para fugir aos Others, que, definitivamente, não são humanos. John Snow é obrigado a escolhas muito difíceis, o que faz com que ele fique ainda mais maduro.
No Este, Daenerys Targaryen, após muitas peripécias, muito sofrimento e muito sacrifício, consegue chocar três ovos de dragão e começa a sua viagem com o objetivo de reconquistar Westeros.
Aria Stark, filha mais nova de Ed Stark, após ver o pai ser decapitado, tenta fugir para Norte, procurando a sua mãe, o que não vai ser nada fácil. O seu irmão, Rob Stark, o Rei do Norte para os seus vassalos, vence várias batalhas no terreno aos Lannisters. Tyrion Lannister é enviado como mão do Rei por seu pai, Tywin Lannister, para ajudar o seu sobrinho Joffrey a reinar (no fundo reinar por ele) e, apesar da oposição de Cersei, sua irmã e Rainha Regente, consegue defender a capital, Kings Landing, e destruir a frota de Stannis Baratheon, sofrendo grandes ferimentos.
Como podem ver há muito para ler e muito mais vem a caminho. A ler!

12 de janeiro de 2013

A Game of Thrones

Acabei de ler, pela segunda vez, este Game of Thrones, da série de fantasia Song of Fire and Ice, de George R. R. Martin. Desta vez fi-lo em inglês e ainda bem que o fiz porque o texto é muito melhor. A tradução portuguesa está muito bem escrita (o português é de qualidade, o ritmo de leitura muito rápido e próximo do original) mas desvia-se em estilo, uma vez que o original usa alguns termos ingleses mais arcaicos que dão um certo glamour ao texto (por exemplo: em vez de escrever "I'm going to eat my breakfast" Martin escreve "I'm going to break my fast").
Martin cria um elenco enorme de personagens, todas elas credíveis e interessantes, usando um estilo de escrita que eu chamo "à lá Dan Brown" ou seja, pequenos capítulos, que contam a história através dos olhos de uma só personagem, com personagens distantes fisicamente, deixando o acção em suspense no fim do capítulo, fazendo com que o leitor devore o livro.
A saga segue a família Stark de Winterfell pelo reino de Westeros e mais algumas personagens com importância, por outras partes do mundo.
O pai, Eddard Stark, Senhor de Winterfell (equivalente a um conde, com um largo domínio sob as suas ordens mas vassalo de um rei), a mãe, Catelyn Tully, filha mais velha do Senhor Hoster Tully de Riverrun, os filhos Robb, Bran e Rickon, as filhas Sansa e Aria, e o filho bastardo de "Ned" Stark, John Snow vêem, literalmente, a vida a andar para trás quando o Rei, Robert Baratheon (que, poucos anos antes depôs Aerys II Targaryen, porque o seu filho,  Príncipe Rhaegar Targaryen, raptou a irmã de "Ned", Lyanna, que estava prometida a Robert), "convida" "Ned" para ser a Mão do Rei (aquele que governa quando o Rei, por alguma razão, não o pode fazer. Como Robert preferia caçar e beber, a Mão do Rei, efectivamente, Reina). Eddard tenta recusar a grande honra mas no fim Robert é Rei e "Ned" aceita. A partir daqui os Starks confrontam-se com as intrigas e jogos de corte entre várias Casas e alguns opositores singulares, correndo, todos os Starks, perigo de vida.
Duas personagens importantes do próximo livro, Daenerys Targaryen e John Snow, começam a crescer neste Game of Thrones, mas irei dar conta delas noutro livro.
E o mais impressionante é que, para um livro de fantasia, só há sugestões da mesma. Dragões e mortos vivos são lendas de um passado não muito distante (cerca de cento e cinquenta anos) e aquilo que nos prende à história são os jogos de corte que não são tão fantasistas assim.
Pouca fantasia é melhor do que esta.

16 de dezembro de 2012

One Flew Over the Cuckoo's Nest

É sempre difícil ler um livro que deu origem a um filme da minha preferência. Voando Sobre um Ninho de Cucos é um dos melhores filmes para se sentir o pulso dos anos sessenta (a par com o Easy Rider ou o Woodstock) e quais as mudanças que eram necessárias operar nas mentalidades. Sempre adorei o filme e a interpretação de Jack Nicholson, mas tenho que admitir que o livro é muito superior.
Chief Bromden, o índio, supostamente, surdo mudo, narra a história pelo meio das suas alucinações (Bromden é, definitivamente, esquizofrénico), contando como McMurphy vai perturbando as maquinações da Combine (entidade que, na cabeça Bromden, controla toda a humanidade, através de máquinas e seres já alterados, como a enfermeira Ratched) através do seu confronto com a rotina do hospital. McMurphy acredita que o seu tempo encarcerado será mais fácil num hospital psiquiátrico do que num campo de trabalhos forçados mas rapidamente começa a mudar de ideias, principalmente quando descobre que pode ficar internado indefinidamente. Aos poucos o seu espírito livre e indomável entra em rota de colisão com a enfermeira Ratched, que no fundo representa o sistema em que estamos inseridos, e, aos poucos, vai desafiando-a e opondo-se, como pode, ao esquema de humilhação e domínio que o hospital, e em particular Ratched, impõe aos pacientes.
No fim, McMurphy tanto perde como ganha o confronto, numa das mais belas histórias sobre o que é que nos faz realmente livres.

23 de novembro de 2012

The Electric Kool-Aid Acid Test

Tom Wolfe decidiu sair de Nova York e ir até São Francisco para saber exatamente o que andavam a preparar os Merry Pranksters, uma comuna artística psicadélica, cujo o guru era Ken Kesey.
Ken ganhou uma bolsa para um curso de pós graduação em escrita criativa, foi um desportista quase olímpico (uma lesão no ombro impediu-o de ir aos Jogos) e decidiu fazer parte do projeto da C.I.A., MKUltra, em que os voluntários eram expostos às mais mais variadas drogas psicadélicas (L.S.D., D.M.T., etc) por forma a estudar os efeitos das mesmas no ser humano. Apesar da C.I.A. ter como objetivo fazer o Super Soldado (seguindo a ideia alemã), os resultados foram fracos nesse campo, mas serviram bem a C.I.A. na elaboração do seu manual de interrogatório/tortura. Já a Ken, as drogas psicadélicas, serviram para abrir o espírito de tal maneira que este decide arranjar um part time no turno noturno de uma instituição psiquiátrica para observar os pacientes e ter acesso à reserva de L.S.D. do hospital. Desta "visita de estudo" surge a obra prima, Voando Sobre um Ninho de Cucos, (irei falar dele proximamente), que catapulta o jovem Kesey para o estrelato. Kesey compra então uma quinta em La Honda, perto de São Francisco, onde se começam a juntar os seus amigos e mais alguns desconhecidos, formando uma comuna ad hoc em que as pessoas eram encorajadas a expandir a sua mente, especialmente com o uso de L.S.D. O livro também descreve as duas viagens de autocarro (o Further) a Nova York e ao México com Neal Cassady, herói da Beat Generation, ao volante.
Tom Wolfe é um grande artista porque consegue com a sua escrita toda a loucura e desconexão de uma trip de ácido, mas ao mesmo tempo manter o leitor na história através de um fio condutor que deve tudo ao jornalismo, como uma crónica dos eventos de um manicómio. A escrita de Tom Wolfe faz-me lembrar o Gonzo Journalism de um contemporâneo seu, Hunter S. Thompson. Um grande livro em que mostra a ascensão e queda do movimento hippie, vista por dentro.

8 de novembro de 2012

Kindle

Este post é um bocadinho diferente dos outros. Adquiri um Kindle da Amazon e, apesar de achar que nada substitui o cheiro da cola de um livro novo, estou rendido! Que aparelho fantástico! Do tamanho de um livro de bolso (dos ingleses) e mais leve que a grande maioria (apenas cento e setenta gramas!!!) é muito fácil usar o Kindle em uma só mão. Com os botões de mudança de página convenientemente localizados para serem acedidos com os polegares (tanto para destros como para canhotos) até em andamento é fácil de usar.
Mas o mais importante é o écran E-Ink Pearl. Nunca vi nada tão parecido com o papel. Apesar de achar que não aguento oito horas a ler o Kindle como aguento a ler um livro, o cansaço é mínimo e a fonte totalmente escalável o que permite pessoas com dificuldades de leitura encontrar o tamanho de letra adequado.
Por último, qualquer título que esteja em PDF pode ser lido no Kindle. Basta enviar um E-mail para um endereço específico, oferecido pela Amazon, com o PDF como anexo. Quando o PDF estiver convertido para o formato Kindle, este é enviado automaticamente para o nosso aparelho, se este estiver ao pé de um spot Wi-Fi. O Kindle também permite trocar de livros entre os que estão no aparelho e os que estão no espaço na Nuvem oferecido pela Amazon sem qualquer problema, aumentando efetivamente o número máximo de livros que se podem transportar (que só no Kindle são cerca de 1400).
Resumindo: uma ótima prenda de natal para uma pessoa que gosta de ler em qualquer lado, como eu.

8 de outubro de 2012

Time Out Rome

Bendito Time Out. Já para Barcelona tinha escolhido o livro desta série e ainda bem que o voltei a fazer. É que além de a informação estar toda certa e os mapas serem bem legíveis, a organização do livro está perfeita. Roma foi dividida por zonas históricas e cada uma delas tem entradas com os pontos de interesse. Até aqui tudo normal, igual a tantos outros guias. O que me agradou especialmente foram as dicas dadas pelos autores dos textos. Por exemplo: "não compre o bilhete no Coliseu que as filas são muito grandes, compre na entrada do Palatino, que não tem lá ninguém e o bilhete dá depois para o Coliseu" ou então "marque a entrada do Museu do Vaticano para quarta feira às 10:00 que é a altura que o Papa esta a falar na Praça de S. Pedro".
O resultado foi poupar umas horas valentes em filas. No Vaticano podia ter chegado lá sem bilhete (cheguei às 10:30) que não demorava mais de vinte minutos. No Coliseu foi só entrar, enquanto que o resto do povo esperava uma boa horinha.
Recomendo a todos os guias Time Out. São "da cena" sem serem demasiado "freakolé".

21 de agosto de 2012

O Padrinho

A trilogia "The Godfather", de  Coppola, é uma das obras primas do cinema. Quando comecei a ler o livro estava com receio que, de alguma forma, o filme perdesse um pouco do seu brilho. Estava totalmente enganado uma vez que o filme é fiel ao livro, com uma precisão de detalhe incrível. Para isso contribuiu, sem dúvida, a participação de Puzo na elaboração com Coppola da adaptação do argumento.
Claro que no livro algumas personagens são mais desenvolvidas e assim aparecem pequenas side stories, não incluídas no filme, que dão ainda mais riqueza a todo o universo de Puzo.
Puzo é um excelente escritor, com um sentido de ritmo fantástico, que nos conduz pela história de uma família emigrante na América. Se mudarmos o nome Corleone para Rockefeller, ou outro qualquer, acabamos por verificar que este livro não conta a história de uma família mafiosa mas sim a história da América com o seus fluxos de imigrantes (Italianos, Irlandeses, Polacos, Russos, Hispânicos, etc) que fazem a grandeza da América (apesar de serem sempre perseguidos e humilhados).
Um excelente livro para se ler nas férias (li em dois dias apenas), mesmo que não se goste da temática dos gangsters, porque se fica a conhecer, mais um pouco, como foi construido esse grande país (NOT!!!), os Estados Unidos.

14 de agosto de 2012

The Shock Doctrine

Naomi Klein tem as suas origens numa família com pedigree activista: os pais mudaram-se para o Canadá em 67, por causa das suas convicções contra a guerra do Vietname. A mãe faz documentários e o pai é médico membro da Physicians for Social Responsibility, uma organização médica que se dedica a alertar e esclarecer o grande público acerca dos efeitos nocivos do nuclear e das toxinas no corpo humano. Já os avós paternos tinham-se oposto ao pacto Molotov-Ribbentrop e abandonado o comunismo em 1956. O avô paterno, durante a greve dos animadores da Disney, foi despedido e viu-se forçado a trabalhar na estiva.
Apesar de toda esta genealogia de esquerda (ou talvez por isso mesmo), Klein passou os seus anos de adolescente fechada em centros comerciais, obcecada com roupas de marca. Sentia-se mal por ter uma mãe tão publicamente feminista.
A sua consciência política foi despertada por dois eventos: a doença grave de sua mãe aos 17 e um massacre contra estudantes femininas na École Polytechnique, em Montreal.
Mas agora o livro. Klein começa por introduzir duas personagens: Milton Friedman , um economista, e Ewen Cameron, um médico psiquiatra.
O que é que têm em comum um economista e um psiquiatra?
Ewen Cameron é famoso pela sua participação no projeto da CIA, MK-ULTRA, no qual se estudava como alterar o comportamento do ser humano, usando recursos como as drogas (sobretudo LSD), privação sensorial, violações verbais e físicas e, sobretudo, tortura. Cameron achava que se devia "limpar" a mente de um paciente com problemas (às vezes tão simples como uma depressão pós-parto) para poder começar de novo. Como tal é impossível, Cameron aplicou os tratamentos com mais intensidade, com especial ênfase para os electrochoques, o seu favorito, em alguns pacientes com voltagens quarenta vezes superiores aos valores máximos recomendados por outros médicos da altura. Apesar de falhar com todos os seus pacientes, deixando-os a todos pior do que estavam antes dos tratamentos (alguns pacientes regrediram ao ponto de confundirem os médicos com os pais ou não serem capazes de fazer as suas necessidades fisiológicas), a C.I.A. utilizou os seus estudos para elaborar o seu programa de tortura psicológica de dois estágios (que consistia basicamente em primeiro desorientar o interrogado com privação de sono e/ou sensorial e também com humilhação de cariz sexual. Assim que o indivíduo está desorientado passa-se a submetê-lo a danos autoinfligidos, como por exemplo manter os braços elevados durante muito tempo, por forma a que o individuo transfira a culpa do seu sofrimento para si e fique mais receptivo ao interrogador uma vez que este pode acabar com as suas dores - muito mais bem explicado aqui), ainda há bem pouco tempo usado no Iraque. É interessante ver a ligação entre este livro e o Homens Que Matam Cabras só com o Olhar.
Milton Friedman foi um Nobel da Economia proeminente da Escola de Chicago que, nos anos cinquenta (por oposição aos Keynesianos que advogavam que o estado deve intervir na economia, escola predominante no Estados Unidos da Grande Depressão até 1973), diz que o Estado deve ter uma intervenção mínima na economia, privatizando sectores como a Educação, Saúde e grande parte do Exército. Resumindo, a única função do Estado deverá ser "(...) to protect our freedom both from enemies outside our gates and from our fellow-citizens: to preserve law and order, to enforce private contracts, to foster competitive markets" ("(...) proteger a nossa liberdade tanto dos inimigos externos como dos nossos concidadãos: preservar a lei e a ordem, garantir os contratos privados e fomentar mercados competitivos").
Estávamos no pico da Guerra Fria e esta teoria era o oposto do Comunismo vigente na altura, em que o Estado controlava tudo.
O pior é que os Poderes Económicos viram nesta teoria a maneira ideal de redireccionar os capitais que o Estado gasta na Saúde, Educação, Exército, Saneamento e vários serviços normalmente à disposição do cidadão, para os seus bolsos. Só existe um problema: o Povo. A aplicação prática desta teoria implica a perda de quase todos os direitos e regalias conquistadas, algumas à custa de sangue, pelos cidadãos.
Solução de Friedman? Os países e os povos tem que ser submetidos a um "shock treatment" ("tratamento de choque") social e económico para criar um "blank state" (alguma semelhança com os tratamentos do Ewen Cameron é pura coincidência... NOT!!!). O primeiro local em que foi experimentado este tratamento de choque? No cone sul-americano, claro está, com o apoio dos Estados Unidos às juntas militares ditatoriais, com início no Chile com o derrube de Salvador Allende por Pinochet. E quem eram os amigos económicos de Pinochet? Os Chicago Boys, claro, com Friedman à cabeça, que foi pessoalmente aconselhar Pinochet sobre como implementar as suas ideias de "mercado livre". O resultado foi uma ditadura militar que durou de 1973 a 1990.
A Escola de Chicago não ficou por aí. Brasil, Argentina, Bolívia, Estados Unidos (com Reagan), Reino Unido (com Thatcher), Polónia, Rússia, Iraque, Afeganistão, Malásia, China (o evento na Praça Tian'anmen aconteceu exactamente quando o Comité Central estava a aplicar as medidas de Friedman que, meses antes, tinha visitado a China), Nova Orleães e Sri Lanka.
Claro que, com o passar dos anos, os métodos de implementação foram-se alterando à medida que os direitos humanos iam revelando as atrocidades cometidas nos países sob o jugo dos ditadores. Alguns exemplos:
No caso do Iraque (um dos países árabes mais desenvolvidos, com maior grau de instrução) invadiram, destruíram e depois emprestaram dinheiro para a reconstrução com a condição de o Estado iraquiano alienar todo o seu património (leia-se petróleo), implementar um sistema de taxa de imposto única (15%) e abrir as portas ao investimento estrangeiro. No caso da Rússia correu um pouco mal para os investidores estrangeiros porque os oligarcas russos ficaram com tudo para eles (o mesmo se passou na China). No caso de Nova Orleães (uma das regiões mais pobres do Estados Unidos) foi preciso o furacão Katrina deixar os cidadãos em estado de choque para o governo americano poder acabar com o ensino público (conselho dado pelo próprio Friedman na última publicação em vida). No Sri Lanka, após o Tsunami que abalou a Ásia, o FMI exigiu, para emprestar dinheiro, que as praias fossem vendidas às grandes cadeias de hotéis de luxo, vedando o acesso às praias à população de pescadores desalojadas. Quando os pescadores saíram do choque do Tsunami, os seus locais de nascimento, as suas raízes, estavam vedados e com guardas armados.
Friedman disse que, no evento de uma crise, real ou percecionada, bastava as suas ideias estarem "perdidas pelo chão" para estas serem "apanhadas". O facto de o FMI e o Banco Mundial estarem cheios de ex-alunos seus ajuda a forçar as medidas quando os países estão mais fragilizados e o povo mais desatento devido a problemas mais graves e prementes.
Os casos de Portugal, Grécia, Espanha, Itália, não vos fazem lembrar nada? Primeiro as agências de rating (americanas e cheias de Friedmanites) dizem que os países não valem nada (crise verdadeira ou percecionada?) e depois o FMI empresta dinheiro sob condições draconianas que implicam a destruição de todo o património do estado e do estado social.
Resumindo, Klein diz que "(...) what we have been living for three decades is frontier capitalism, with the frontier constantly shifting location from crisis to crisis, moving on as soon as the law catches up (...)" ("(...) o que temos vivido nas últimas três décadas é um capitalismo de fronteira, com a fronteira a ser constantemente mudada de uma crise para outra, partindo assim que a Lei chega (...)") e que "(...) Under Chicago School economics, the state acts as the colonial frontier, which corporate conquistadors pillage with the same ruthless determination and energy as their predecessors showed when they hauled home the gold and silver of the Andes (...)" ("(...) Segundo a teoria económica da Escola de Chicago, o Estado age como a fronteira colonial, em que as Corporações Conquistadoras pilham com a mesma implacável determinação e energia que os seus predecessores mostraram quando rapinaram o ouro e a prata dos Andes (...)").
Por favor abram os olhos!!!

4 de agosto de 2012

Dia D

Que seca. Não me interpretem mal: até li bem depressa este calhamaço de seiscentas e cinco páginas e uns trocos. Mas o conteúdo, que maçudo... O Montgomery isto, Patton aquilo. As intrigazinhas de poder entre ingleses e americanos, exércitos e força aérea e os homens a morrerem no terreno. Quero lá saber que a "1ª Divisão Blindada polaca recebeu ordens para avançar sobre Chambois" ou que "a 90ª Divisão americana, (...) teve uma desagradável surpresa quando a divisão Das Reich e o que restava da 17ª Divisão Panzergrenadier SS atacou subitamente (...)".
Antony Beevor até faz um bom trabalho ao disfarçar uma série de dados fastidioso com histórias pessoais de soldados, algumas bem tocantes como "(...) ele gritou por um médico. Um homem do corpo médico avançou rapidamente para o ajudar e também foi alvejado. O socorrista ficou junto ao soldado e ambos ficaram a gritar até morrerem (...)" ou "(...) por outras palavras, nós éramos suficientemente bons para ficar dentro do cerco. As SS olham pelos seus (...)".
Tanto quanto eu posso afirmar o conteúdo é correcto (não sendo uma autoridade) mas eu prefiro um livro sobre o que se passou com os soldados no terreno a um livro histórico sobre os macro acontecimentos.

3 de agosto de 2012

Guevara - Antologia

A primeira vez que li este livro tinha uns dezassete anos e tenho que admitir que achei muito mais piada na altura.
O Comunismo não é resposta. Tem que haver outra solução de esquerda porque senão estamos lixados. Por exemplo, no texto "O exemplo cubano: caso excepcional ou vanguarda da luta contra o imperialismo", Guevara começa por elogiar Fidel Castro, pessoa que transformou a Revolução Cubana numa ditadura do proletariado. A seguir refere o desejo do campesinato de uma reforma agrária que lhe permitisse possuir um pouco de terra e destruísse os latifúndios... Bem agora já não há campesinato porque ninguém quer vergar a mola no campo. Ou ainda que "(...) nos parece improvável é que as forças armadas aceitem profundas reformas sociais (...)"... A nossa revolução provou o contrário.
O que mais me interessou foi o capítulo "A guerra de guerrilha", um manual prático, criado a partir das suas experiências, mas, infelizmente, é composto apenas por excertos.
Qualquer das formas tiro o chapéu aos autores da selecção e tradução (Adriano de Carvalho e João Bernardo) e ao editor (da Novo Rumo) por lançarem este livro em plena ditadura, no ano de mil, novecentos e sessenta e sete.
Guevara presidiu vários tribunais revolucionários e com isso manchou a sua imagem com várias penas de morte, talvez escusadas, em nome do povo e da revolução. Mas o seu coração era bem intencionado e por isso pagou com a vida.

27 de julho de 2012

Street Art

O meu amigo Carlos emprestou-me este livro para eu tentar entender um pouco mais do que se passa nas paredes de Lisboa e do mundo. Devo dizer que aprendi muita coisa e, principalmente, fiquei a conhecer os nomes e as obras mais significativas dos artistas mais conceituados do meio. O problema é que, como em todos os livros teóricos sobre a arte, a linguagem usada, apesar de simples e bem escrita, é demasiado críptica e orientada para quem já tem bastantes conceitos sobre estética e história da arte. Como bom ensaio que é tem tudo: enquadramento histórico, os primórdios do movimento e os diversos degraus que a Street Art foi subindo até chegar ao que é hoje. Imaginem uma tese de doutoramento traduzida para o comum dos mortais mas por alguém que nunca escreveu nada para o comum dos mortais. Estão a ver?
Penso que é um bom livro (eu gostei de ler) mas que exige que o leitor já saiba bastante da definição do conceito de Arte. Como o meu conceito de Arte não passa de "gosto, não gosto", fiquei de fora de muitas das ideias e dos conceitos que o autor escreve.

8 de junho de 2012

Inferno, Ida e Volta

Frank Miller volta à carga com o sétimo volume da série Sin City, "Inferno, Ida e Volta", e tenho a dizer que já estou um pouco farto. Não do grafismo, que o traço de Miller está cada vez melhor e a dinâmica do livro é perfeita: o leitor abranda ou acelera a leitura ao gosto do autor. O que me aborrece é a história policial noir de cordel, em que Wallace, o herói (neste caso um artista pintor mas também ex-militar), evita que uma jovem linda cometa suicídio. A jovem tem problemas com uns senhores muito maus e o herói limpa o cebo a todos, fugindo no fim com a "princesa". O que é apenas uma repetição do "A Cidade do Pecado" mas sem o twist de a personagem principal morrer, o que é muito mais divertido. E, sinceramente, prefiro o método do Marv para obter aquilo que quer.
Um apontamento curioso são as 26 páginas a cores, onde é descrito a luta de Wallace com uma droga alucinogénica, injectada pelos maus da fita, para se manter na investigação que o há-de levar à boazona de serviço.
Tenho pena que o argumento seja tão gasto (até dentro da própria série) porque o grafismo é superlativo.

2 de junho de 2012

Autoimóvel

Quando me perguntaram se eu conhecia os Zits eu disse algo como "quem?", mas depois de ver a capa reconheci-os imediatamente, uma vez que já perdi largos minutos em livrarias a folhear os diversos livros da coleção. Por recomendação e por empréstimo, li este Autoimóvel e gostei bastante.
A maior força e a maior fraqueza deste livro reside no facto de as piadas serem muito dependentes da época em que vivemos.
Força, porque aponta, de forma acutilante, muitos dos problemas que as famílias de agora sofrem com os filhos adolescentes. Os pais Ducan, apesar de tentarem e até terem boas intenções, cometem erros típicos desta geração de pais de agora. A título de exemplo:
Fraqueza, porque, como muitas das tiras da Mafalda, assim que o contexto histórico desaparecer, a maioria das pranchas perde a sua força. Neste aspecto, o Calvin & Hobbes é muito mais intemporal.
No todo é um livro muito divertido e cómico mas que com o passar dos anos irá perder a sua força.

22 de abril de 2012

Homens Que Matam Cabras só com o Olhar

Jon Ronson é um jornalista galês que decidiu investigar as explorações que o exército americano fez no campo da New Age e do paranormal, no fim dos anos 70, início dos 80. Até aqui tudo (mais ou menos) bem... Não é de agora que os grandes exércitos, na sua procura do super soldado, "apelam" para poderes superiores. Já Hitler tinha uma divisão que estudava o paranormal (mas também novos métodos para exterminar, extirpar, torturar, humilhar todos os opositores e mais alguns) para tentar desencantar uma vantagem sobre o adversário.
No fim do trauma do Vietname as forças armadas americanas estavam deprimidas, quer humanamente, quer como instituição. Era necessário fazer algo que, por um lado, devolvesse o amor próprio ao militar americano e que, por outro, tornasse os Estados Unidos na super potência que parecia ser, mas que falhou demonstrar no terreno do Vietname.
Estão assim abertas as portas para que a insanidade se instale.
LTC Jim Channon (para quem não sabe LTC quer dizer Lieutenant Colonel - Tenente Coronel... bastante alto na cadeia, pode-se dizer), ao sair de um helicóptero em pleno combate, verifica que os seus homens, todos novatos, falham propositadamente o alvo a abater (no caso, uma mulher vietcong altamente motivada). Devido a essa ineficácia, Channon, é baleado no peito e, nesse momento, tem uma epifania. Se os soldados sentem uma força dentro deles que os impede de matar, porque não usar essa força para benefício do Grande Exército Americano? Com estes argumentos, Jim Channon, convence o Estado Maior a pagar-lhe uma "visita de estudo" a todos os movimentos New Age que a costa Oeste dos Estados Unidos produziu. Se somarmos a isto todas as drogas possíveis e imagináveis, o que obtemos é o First Earth Battalion (juro que não estou a brincar), completo com um manual de 125 páginas! Eu não consigo sequer começar a descrever as coisas que eles tentaram (há um dos soldados que afirma que matou uma cabra só de olhar para ela, daí o título do livro) mas o que é facto é que alguns dos procedimentos do manual foram usadas na guerra do golfo, pelo Bush, como forma de torturar pobres desgraçados...
Resumindo: um livro obrigatório! Hunter S. Thomson diria: "Pure Gonzo Journalism"!
O porquê do Bush ter usado no Iraque tais técnicas de tortura é tema para o meu próximo livro, The Shock Doctrine, uma autêntica bomba!!!