4 de agosto de 2012

Dia D

Que seca. Não me interpretem mal: até li bem depressa este calhamaço de seiscentas e cinco páginas e uns trocos. Mas o conteúdo, que maçudo... O Montgomery isto, Patton aquilo. As intrigazinhas de poder entre ingleses e americanos, exércitos e força aérea e os homens a morrerem no terreno. Quero lá saber que a "1ª Divisão Blindada polaca recebeu ordens para avançar sobre Chambois" ou que "a 90ª Divisão americana, (...) teve uma desagradável surpresa quando a divisão Das Reich e o que restava da 17ª Divisão Panzergrenadier SS atacou subitamente (...)".
Antony Beevor até faz um bom trabalho ao disfarçar uma série de dados fastidioso com histórias pessoais de soldados, algumas bem tocantes como "(...) ele gritou por um médico. Um homem do corpo médico avançou rapidamente para o ajudar e também foi alvejado. O socorrista ficou junto ao soldado e ambos ficaram a gritar até morrerem (...)" ou "(...) por outras palavras, nós éramos suficientemente bons para ficar dentro do cerco. As SS olham pelos seus (...)".
Tanto quanto eu posso afirmar o conteúdo é correcto (não sendo uma autoridade) mas eu prefiro um livro sobre o que se passou com os soldados no terreno a um livro histórico sobre os macro acontecimentos.

3 de agosto de 2012

Guevara - Antologia

A primeira vez que li este livro tinha uns dezassete anos e tenho que admitir que achei muito mais piada na altura.
O Comunismo não é resposta. Tem que haver outra solução de esquerda porque senão estamos lixados. Por exemplo, no texto "O exemplo cubano: caso excepcional ou vanguarda da luta contra o imperialismo", Guevara começa por elogiar Fidel Castro, pessoa que transformou a Revolução Cubana numa ditadura do proletariado. A seguir refere o desejo do campesinato de uma reforma agrária que lhe permitisse possuir um pouco de terra e destruísse os latifúndios... Bem agora já não há campesinato porque ninguém quer vergar a mola no campo. Ou ainda que "(...) nos parece improvável é que as forças armadas aceitem profundas reformas sociais (...)"... A nossa revolução provou o contrário.
O que mais me interessou foi o capítulo "A guerra de guerrilha", um manual prático, criado a partir das suas experiências, mas, infelizmente, é composto apenas por excertos.
Qualquer das formas tiro o chapéu aos autores da selecção e tradução (Adriano de Carvalho e João Bernardo) e ao editor (da Novo Rumo) por lançarem este livro em plena ditadura, no ano de mil, novecentos e sessenta e sete.
Guevara presidiu vários tribunais revolucionários e com isso manchou a sua imagem com várias penas de morte, talvez escusadas, em nome do povo e da revolução. Mas o seu coração era bem intencionado e por isso pagou com a vida.

27 de julho de 2012

Street Art

O meu amigo Carlos emprestou-me este livro para eu tentar entender um pouco mais do que se passa nas paredes de Lisboa e do mundo. Devo dizer que aprendi muita coisa e, principalmente, fiquei a conhecer os nomes e as obras mais significativas dos artistas mais conceituados do meio. O problema é que, como em todos os livros teóricos sobre a arte, a linguagem usada, apesar de simples e bem escrita, é demasiado críptica e orientada para quem já tem bastantes conceitos sobre estética e história da arte. Como bom ensaio que é tem tudo: enquadramento histórico, os primórdios do movimento e os diversos degraus que a Street Art foi subindo até chegar ao que é hoje. Imaginem uma tese de doutoramento traduzida para o comum dos mortais mas por alguém que nunca escreveu nada para o comum dos mortais. Estão a ver?
Penso que é um bom livro (eu gostei de ler) mas que exige que o leitor já saiba bastante da definição do conceito de Arte. Como o meu conceito de Arte não passa de "gosto, não gosto", fiquei de fora de muitas das ideias e dos conceitos que o autor escreve.

8 de junho de 2012

Inferno, Ida e Volta

Frank Miller volta à carga com o sétimo volume da série Sin City, "Inferno, Ida e Volta", e tenho a dizer que já estou um pouco farto. Não do grafismo, que o traço de Miller está cada vez melhor e a dinâmica do livro é perfeita: o leitor abranda ou acelera a leitura ao gosto do autor. O que me aborrece é a história policial noir de cordel, em que Wallace, o herói (neste caso um artista pintor mas também ex-militar), evita que uma jovem linda cometa suicídio. A jovem tem problemas com uns senhores muito maus e o herói limpa o cebo a todos, fugindo no fim com a "princesa". O que é apenas uma repetição do "A Cidade do Pecado" mas sem o twist de a personagem principal morrer, o que é muito mais divertido. E, sinceramente, prefiro o método do Marv para obter aquilo que quer.
Um apontamento curioso são as 26 páginas a cores, onde é descrito a luta de Wallace com uma droga alucinogénica, injectada pelos maus da fita, para se manter na investigação que o há-de levar à boazona de serviço.
Tenho pena que o argumento seja tão gasto (até dentro da própria série) porque o grafismo é superlativo.

2 de junho de 2012

Autoimóvel

Quando me perguntaram se eu conhecia os Zits eu disse algo como "quem?", mas depois de ver a capa reconheci-os imediatamente, uma vez que já perdi largos minutos em livrarias a folhear os diversos livros da coleção. Por recomendação e por empréstimo, li este Autoimóvel e gostei bastante.
A maior força e a maior fraqueza deste livro reside no facto de as piadas serem muito dependentes da época em que vivemos.
Força, porque aponta, de forma acutilante, muitos dos problemas que as famílias de agora sofrem com os filhos adolescentes. Os pais Ducan, apesar de tentarem e até terem boas intenções, cometem erros típicos desta geração de pais de agora. A título de exemplo:
Fraqueza, porque, como muitas das tiras da Mafalda, assim que o contexto histórico desaparecer, a maioria das pranchas perde a sua força. Neste aspecto, o Calvin & Hobbes é muito mais intemporal.
No todo é um livro muito divertido e cómico mas que com o passar dos anos irá perder a sua força.

22 de abril de 2012

Homens Que Matam Cabras só com o Olhar

Jon Ronson é um jornalista galês que decidiu investigar as explorações que o exército americano fez no campo da New Age e do paranormal, no fim dos anos 70, início dos 80. Até aqui tudo (mais ou menos) bem... Não é de agora que os grandes exércitos, na sua procura do super soldado, "apelam" para poderes superiores. Já Hitler tinha uma divisão que estudava o paranormal (mas também novos métodos para exterminar, extirpar, torturar, humilhar todos os opositores e mais alguns) para tentar desencantar uma vantagem sobre o adversário.
No fim do trauma do Vietname as forças armadas americanas estavam deprimidas, quer humanamente, quer como instituição. Era necessário fazer algo que, por um lado, devolvesse o amor próprio ao militar americano e que, por outro, tornasse os Estados Unidos na super potência que parecia ser, mas que falhou demonstrar no terreno do Vietname.
Estão assim abertas as portas para que a insanidade se instale.
LTC Jim Channon (para quem não sabe LTC quer dizer Lieutenant Colonel - Tenente Coronel... bastante alto na cadeia, pode-se dizer), ao sair de um helicóptero em pleno combate, verifica que os seus homens, todos novatos, falham propositadamente o alvo a abater (no caso, uma mulher vietcong altamente motivada). Devido a essa ineficácia, Channon, é baleado no peito e, nesse momento, tem uma epifania. Se os soldados sentem uma força dentro deles que os impede de matar, porque não usar essa força para benefício do Grande Exército Americano? Com estes argumentos, Jim Channon, convence o Estado Maior a pagar-lhe uma "visita de estudo" a todos os movimentos New Age que a costa Oeste dos Estados Unidos produziu. Se somarmos a isto todas as drogas possíveis e imagináveis, o que obtemos é o First Earth Battalion (juro que não estou a brincar), completo com um manual de 125 páginas! Eu não consigo sequer começar a descrever as coisas que eles tentaram (há um dos soldados que afirma que matou uma cabra só de olhar para ela, daí o título do livro) mas o que é facto é que alguns dos procedimentos do manual foram usadas na guerra do golfo, pelo Bush, como forma de torturar pobres desgraçados...
Resumindo: um livro obrigatório! Hunter S. Thomson diria: "Pure Gonzo Journalism"!
O porquê do Bush ter usado no Iraque tais técnicas de tortura é tema para o meu próximo livro, The Shock Doctrine, uma autêntica bomba!!!

29 de março de 2012

Supercarros

Este fim de semana que passou prestei um pouco mais de atenção a este livro que parava lá por casa. Devo dizer que achei engraçado mas pouco mais. A informação que é oferecida é de boa qualidade, com uma dupla página com fotos e textos sobre a história de um determinado veículo e depois outra página dupla com cinco perspectivas, conforme a imagem em baixo, mais alguns pontos fortes do veículo e uma ficha técnica com aqueles números que só os fanáticos dos carros sabem o que significa. Até aqui tudo bem. O problema é que o livro, para além de estar desatualizado (nota-se a falta de alguns carros mais modernos), tem demasiados carros americanos. Se é verdade que em quantidade os americanos batem-se bem, também é verdade que em performance e design os europeus (e até os japoneses) estão milhares de anos à frente... basta por lado a lado, por exemplo, o Ferrari Enzo com o Dodge Vipper. Há comparação? Enfim um livro para oferecer a um iniciado automóvel.
O meu belo Miura

22 de março de 2012

As Aventuras de Huckleberry Finn

"As Aventuras de Huckleberry Finn" é a sequela de "As Aventuras de Tom Sawyer". Twain muda de estilo, narrando a história na primeira pessoa através da voz de Huck. Após o final do livro anterior, a Viúva Douglas decide tomar conta de Huck e "civilizá-lo". Passado pouco tempo, Huck começa a sentir desconforto no aperto das roupas finas e o constrangimento das regras da sociedade. Quando escapa da Viúva, cai nas garras do Pai, o bêbado da aldeia. Após variadíssimos abusos, Huck decide fugir novamente mas de vez. Nas peripécias da fuga acaba por escapar com o Negro Jim. Como escravo em fuga, Jim fica com a cabeça a prémio (300 dólares - uma pequena fortuna, à época).
A acção desenrola-se pelo Mississippi abaixo, por mais de onze mil milhas, permitindo a Twain mostrar as vidas e os costumes do Sul esclavagista moderado (nenhum negro é chicoteado nesta história e, como sempre, as coisas correm bem da maneira mais mirabolante possível). No fim Huck torna-se amigo de Jim, contra tudo aquilo que aprendeu na sua educação.
Apesar do livro ser divertido e de fácil leitura, tenho alguns reparos a fazer:

Primeiro, o fim é um pouco atabalhoado. Merecia talvez mais um capítulo ou dois. Segundo, acho que esta tradução não é a melhor. No início o tradutor informa o leitor que grande parte do texto é escrito em vários dialectos e como tal algumas coisas se perderam na tradução e depois aparecem no texto pérolas como "intelequetual" ou "matrial". Fiquei sem perceber se eram apenas erros tipográficos ou tentativas péssimas de fazer uma transposição para a língua portuguesa do dialecto que a personagem está falar no momento.
Por último quero agradecer muito, muito, muito à Tatiana por realmente prestar atenção ao que as pessoas dizem. Estou muito contente por te ter conhecido.

1 de março de 2012

As Aventuras de Tom Sawyer

É muito difícil escolher um livro para mim, a minha mãe que o diga que já repetiu uns quantos. Quando a minha amiga Ana ofereceu-me este clássico, ela ficou quase tão contente como eu, por ter acertado num livro que eu ainda não tivesse lido.
Ao princípio achava que este Samuel Langhorne Clemens (Marc Twain para os amigos) ia ser uma seca, super descritivo, como os nossos românticos, os vitorianos ingleses ou o Jules Verne. Não podia estar mais enganado. Twain escreve simples e tem a mestria de, com muito poucas palavras, dizer tudo o que quer e invocar imagens muito bonitas da vida nas margens do Mississippi na mente do leitor.
Cada capítulo, apesar de inseridos numa história maior, pode ser lido separadamente e conseguirá fazer sorrir o mais mal humorado dos velhos dos Marretas.
Tom é o rapaz típico: adora a liberdade e odeia a escola. Isso aliado ao facto de viver junto das margens do Mississippi onde há imensas actividades interessantes como pescar, procurar um tesouro, dormir ao relento, explorar grutas, namorar ou tomar banho no rio tornam a vida da Tia Polly (a senhora que cuida de Tom e de seu meio irmão, Sid) muito mas muito difícil. As brincadeiras e tropelias de Tom fazem-me lembrar as que eu fazia em Monte Real quando era miúdo e se não fiz disparates iguais pelo menos fiz parecidos. Aliás quem as não fez? E quem não fez tenho pena, devem ter tido uma infância muito chata...