10 de fevereiro de 2012

Crimes Exemplares

Quando uma grande amiga me aconselhou a ler este pequeno livro, fiquei imensamente desiludido de ter que lhe dizer que já o tinha em casa. Prometi-lhe que ia reler e em boa hora o fiz porque esta obra é pura e simplesmente genial. Max Aub, filho de um Alemão e de uma Judia Francesa, teve uma vida atribulada em Espanha, durante a guerra civil, e em França, durante a segunda grande guerra, o que o fez radicar-se com a sua família no México, onde conheceu Luis Buñuel, entre outros. Ao longo do seu percurso de vida foi recolhendo relatos de homicídios perpetrados em grande maioria por gente "normal". Donas de casa, barbeiros, utentes de transportes públicos, pacientes, médicos, todos caminham à beira do abismo, a um simples passo da desgraça. "Matei-o porque tinha mais força do que eu" e "Matei-o porque tinha mais força do que ele" revela uma espécie humana com grandes dificuldades na comunicação, sem conseguir gerir o stress de forma adequada. Assusta-me a crise porque é um factor de stress muito forte e as pessoas estão perto do limite ("Don't push me 'cause i'm close to the edge, i'm trying not to loose my head"). Como sempre, a Antígona a não desiludir com este livro. E para terminar, o meu favorito: "Matei-o porque não pensava como eu"!!!

7 de janeiro de 2012

The Caverns of Kalte - Lone Wolf

The Caverns of Kalte leva Lone Wolf aos gelos do norte em perseguição de Vonotar, o mágico traidor que ajudou os Darklords of Helgedad a destruírem o Mosteiro Kai e a quase conquistarem Sommerlund. Neste livro a natureza é a principal inimiga até que o nosso herói chega a Fortaleza de Gelo, local onde Vonotar se escondeu (com a ajuda forçada de Loi-Kymar) da ira dos Darklords, uma vez que estes não admitem falhas e Vonotar falhou na conquista de Sommerlund. Vonotar também controla, através de magia, os ferozes bárbaros do gelo, para dificultar ainda mais a arriscada missão do Lone Wolf mas, com as escolhas acertadas, esta aventura faz-se até ao fim quase sem combate.
Como complemento, a pequena aventura "Vonotar's Web" conta a história de como Loi-Kymar foi forçado a ajudar Vonotar a teleportar-se para a Fortaleza de Gelo.

26 de dezembro de 2011

Vício Intrínseco

Imaginem um L.A. Confidential com conspiração, CIA e um círculo de tráfico de heroína para financiar operações menos recomendáveis, mas em vez dos polícias durões e corruptos do Confidential, temos um detective privado hippie e pot head arrastado para uma história, talvez demais para a sua camioneta, por uma ex-namorada que se meteu com as pessoas erradas. Junte-se a isto um advogado, também pot head, um saxofonista heroinomano, um milionário que tem um súbito ataque de consciência e uma escuna com o nome de Golden Fang e o resultado é um livro fantástico.
Pynchon brinca com o estilo do policial negro dos anos 50, adaptando-o ao fim dos anos 60, com toda a loucura que isso implica. Desde a enumeração de todos os tipos de erva disponíveis na costa Oeste dos Estados Unidos até aos melhores locais de L.A. para matar a ressaca do fumo (comer) por noventa e nove cêntimos, tudo cabe neste romance. Sportello (o herói da história) consegue desfiar a trama do caso durante uma trip de LSD, qual Sherlock Holmes envolto nos seus fumos de ópio.
Estilo e escrita irrepreensível fazem da leitura deste livro o prazer enorme que não posso deixar de aconselhar a todos.

16 de novembro de 2011

Fire On The Water - Lone Wolf

O início da guerra, com o massacre dos discípulos Kai, deixou o reino de Sommerlund bastante inferiorizado em relação aos exércitos do Darklord Zagarna que avança, imparável, até à capital, Holmgard. A esperança de salvação reside na Sommerswerd, espada encantada que só pode ser empunhada por um discípulo de Kai e que se encontra à guarda do Rei Alin IV, soberano de Durenor (país vizinho e aliado). O Rei Ulnar V, desesperado, pede a Lobo Solitário que convoque os seus antigos aliados para a guerra e que traga a Sommerlund para derrotar o mal que assola o país. Para tal, entrega-lhe o Selo de Hammerdal, penhor da aliança que Durenor tem com Sommerlund. Ulnar avisa também Lobo Solitário que Holmgard não conseguirá resistir a um cerco mais de quarenta dias. A hora é grave.
Assim começa mais uma aventura para o jovem Kai. Pelo caminho, muitas peripécias, alguns combates, novos aliados e um inimigo poderoso, perfazem os ingredientes para mais um óptimo livro que apesar de não ser bem para a minha idade é bem escrito e com um ritmo excelente, apesar de ser por secções (no fim de um ou dois parágrafos o texto pergunta ao leitor o que quer fazer: "se quiser ir para sul vá para o 250, se quiser ir para norte vá para o 35") e como bónus a aventura do Cavaleiro Rhygar (um dos aliados de Lobo Solitário) na sua busca pela coroa do Rei Alin dois anos antes desta aventura. Adoro a colecção e já estou a ler o próximo, The Caverns of Kalte.

Flight From the Dark - Lone Wolf

Capa da nova edição,
Collector's Edition
Há muito tempo atrás, ainda estávamos no século passado, por volta do ano de 1990, a minha mãe ofereceu-me um pequeno livro chamado "O Fugitivo das Trevas". Foi o primeiro Livro/Jogo que recebi (sendo que os outros que li/fiz faziam parte da coleção Aventura Fantástica da Verbo) e também o primeiro contacto com os RPG (Role Playing Game). Rapidamente fiquei viciado. Com uma mecânica de jogo extremamente simples (o texto está dividido em entradas e no fim de cada uma das entradas tem opções para o leitor/jogador escolher, como por exemplo, "If you wish to enter this tavern, turn to 4; If you decide to continue on your way along the street, turn to 83". Tem também um sistema de combate, várias disciplinas Kai para aprender e objetos que podem a vir a ser úteis noutros livros. Por último, todos os volumes da coleção fazem parte de uma única campanha, com o mesmo herói, que assim vai melhorando as suas capacidades levando quem lê a afeiçoar-se cada vez mais à personagem) o leitor progride pela história a grande velocidade (li este volume em três dias) sempre desejando saber mais acerca do que nos vai acontecer.
Capa original,
edição portuguesa

Neste livro fazemos o papel de Lobo Silencioso, um jovem iniciado no mosteiro de Kai (um mosteiro em que se ensinam artes marciais), que tem o azar de presenciar a chacina de todos os membros sua Ordem. Apesar de muito novo e ainda pouco versado nas disciplinas Kai, o agora Lobo Solitário (visto ser o único sobrevivente da ordem) decide vingar os seus companheiros e seguir até à capital de Sommerlund, Holmgard, avisar o Rei Ulnar V, de que os Darklords de Helgedad voltaram e conseguiram destruir toda a Ordem de Kai.
Joe Dever atualizou o texto para esta nova edição que conta também com novas ilustrações (apesar de eu preferir as originais de Gary Chalk). Recomendo este livro a todos os que gostam de fantasia e que querem aprender inglês (Joe Dever escreve de forma muito simples), uma vez que as traduções portuguesas já não estão disponíveis no mercado. Para quem não quer gastar dinheiro (cada livro custa à volta de dez libras) fica aqui o site do Project Aon que contém todos os textos e desenhos da primeira edição para ler na net ou para download.

14 de novembro de 2011

As Sagradas Escrituras - As Aventuras de Deus e do Menino Jesus

"Ó Deus, como eu te detesto por não existires". Assim começa esta paródia às sagradas escrituras, tal e qual como Ele as ditou a Cavanna, escritor e desenhador cómico francês, que se deu ao trabalho de ler a Bíblia e de compilar uma série de absurdos, contradições e partes gagas, desculpem-me o termo, que este livro milenar contém. Devo confessar que, quando li o livro por volta dos 17, achei muito mais piada do que agora, mas mesmo assim há tiradas ótimas que fazem rir qualquer um, expecto os católicos (e já agora os judeus) com pouco espírito desportivo. Pérolas como "Para se saber que se é Deus é preciso ser-se dois: um que é Deus e outro que lhe diz «Meu Deus»", "Deus Cria o homem. O homem porta-se como um porco. Deus fica desiludido, mas não se aborrece" ou, acerca da virgindade de Maria, "Mas alguns, cujo coração estava pervertido disseram que talvez fosse resultado de coito contranatura que o Eterno colocou entre o orifício excremental e a porta das bênçãos. O mundo é tão mau" povoam este livro, escrito ao modo das escrituras, arrancam gargalhadas do leitor incauto e apontam para as muitas incongruências dos escritos sagrados.
Enfim, um livro divertido mas que nada trás de novo a quem já tenha lido as escrituras com um olho crítico.

10 de novembro de 2011

Fear and Loathing in Las Vegas: A Savage Journey to the Heart of the American Dream

Quem me conhece sabe que o "Delírio em Las Vegas" é um dos meus filmes favoritos e, provavelmente, já o viu em minha casa umas quantas vezes.
Assim, nada mais natural que ler o livro também.
Thompson mudou-se para para São Francisco em 1965, e esteve na crista da Big Acid Wave, em conjunto com nomes como Ken Kesey, Jefferson Airplane ou  Owsley "The Cook" Stanley, e quando o Summer of Love atingiu São Francisco, Thompson já era um jornalista experiente, com várias publicações espalhadas por vários jornais dos Estados Unidos e da América Latina e dois romances de ficção (não publicados na altura) na bagagem.
Thompson começa a obter notoriedade nacional com um artigo no jornal The Nation sobre os Hell's Angels, após o qual recebe vários convites para escrever um livro. Passado um ano a viver com o grupo e alguns dissabores (Thompson foi espancado por membros do gangue) o seu primeiro livro, Hell's Angels: The Strange and Terrible Saga of the Outlaw Motorcycle Gangs, foi publicado. Esta foi a primeira incursão de Thompson na não ficção e o seu primeiro sucesso literário. A partir daqui sucedem-se colaborações em publicações de renome como New York Times Magazine ou a Esquire, e Thompson começa a interessar-se pelo tema principal deste Fear and Loathing in Las Vegas: a morte do American Dream.
Em 1970 Thompson escreve, por encomenda, The Kentucky Derby Is Decadent and Depraved, peça desportiva sobre o Kentucky Derby, no qual Thompson se preocupa mais com o ambiente decadente do Derby do que propriamente com os resultados desportivos (Thompson não conseguia ver as corridas do seu local de observação). A peça é ilustrada por Ralph Steadman, que o acompanha ao derby, numa primeira de muitas colaborações na carreira de ambos.
Thompson e Acosta
Del Toro e Depp
Em 1971, Thompson junta-se a Oscar Zeta Acosta ("One of God's own prototypes. A high-powered mutant of some kind never even considered for mass production. Too weird to live, and too rare to die" nas palavras de Thompson) para recolher informações sobre a morte de Rubén Salazar, um americano de origem mexicana mexicano morto numa manifestação pela polícia de Los Angeles, mas devido às tensões raciais decidem continuar a conversa em Las Vegas, aproveitando uma proposta de trabalho de Thompson para cobrir a corrida Mint 400. Um mês depois Thompson volta a Vegas com Acosta para cobrir a Convenção Nacional de Procuradores sobre Narcóticos e Drogas Perigosas (tradução minha). Quem melhor que um advogado com um vício de anfetaminas e LSD e um jornalista com historial de abuso de drogas e amor pelas armas para cobrir tal convenção? Destas duas viagens sai uma obra prima, este Fear and Loathing, ilustrado por Steadman com grotescas caricaturas de Thompson (Raoul Duke no livro) e de Acosta (Dr. Gonzo, "a 300-pound Samoan", em honra do gonzo journalism, estilo literário inventado por Thompson), que depois de descascada de todo o surrealismo mostra claramente a desilusão de todo um movimento de contra-cultura afogado no mainstream americano.
Um livro que toda a gente devia ler.



21 de outubro de 2011

20 de outubro de 2011

The Complete Chronicles of Conan

UFA!!! Finalmente acabei esta Bíblia de novecentas e vinte e cinco páginas. Com todos os contos e novelas do Conan reunidos num só volume (se preferirem em português podem comprar na Saída de Emergência mas ainda não estão traduzidas todas as peças), só o peso mostra bem o quanto prolífico era Robert E. Howard (que além do Conan ainda tem outros heróis como Solomon Kane ou King Kull) antes de suicidar aos 30 anos devido ao stress provocado pelo coma da sua mãe.
Texano de nascimento, Howard foi vítima de bulling na sua infância o que, sem dúvida, o levou a criar um herói como o Conan. Sem dúvida, num ponto ou outro da nossa juventude desejamos ter a força ciclópica ou a agilidade felina de Conan, para já não falar no seu magnetismo natural para as mulheres...
Howard escreveu muito mas escreveu bem! A ação salta para fora das páginas de tão vívidas que são as imagens dadas pelas palavras do autor. Sejam descrições de uma batalha, de um corpo de uma jovem (que certamente vai ser salva por Conan) ou até dos movimentos do herói tudo se constrói na imaginação do leitor como se de um filme se tratasse.
Ao contrário da crença popular (provocada pelos filmes com o Arnold Schwarzenegger) Conan é extremamente inteligente, conhecedor de outras civilizações, de outras línguas faladas e escritas, sabe navegar, construir armas de cerco, cavalgar, escalar, etc. A expressão "Bárbaro" surge pelo facto de Conan, ao contrário dos homens ditos "civilizados", está em total sintonia com a natureza e com o seu corpo. Conan nasceu no meio da batalha e pelo aço vai abrindo caminho até reinar a Aquilonia, depois de ter sido mercenário, ladrão, pirata, explorador, etc.
Qualquer pessoa que goste de fantasia deve ler o Conan, pela qualidade dos textos e pela importância histórica que teve para o género, mas não façam como eu e leiam tudo de uma vez. Ao fim de 500 ou 600 páginas começa a fartar. Um bom livro para ter à cabeceira e ir lendo uma aventura de cada vez ao longo de muitos dias...

19 de setembro de 2011

Por Um Fio

Joe Connelly faz pleno uso da sua experiência profissional (foi para-médico durante cerca de 10 anos) para escrever este livro, tanto no conteúdo, como na sua forma. No conteúdo, porque as descrições das situações de emergência são fabulosas e às vezes tão surreais que só podem ser verídicas. Na forma, porque não há qualquer dúvida que este livro foi escrito por alguém que trata o stress por tu.
As coisas que acontecem a Frank, personagem principal, levam à reflexão por parte do leitor sobre assuntos muito importantes para a humanidade como a solidão, a pobreza, a miséria humana ou a morte, e fazem que que este esteja à beira da loucura, falando com os fantasmas das pessoas que "matou" (ou melhor: não consegui salvar). O título original do livro é Bring out the dead, pregão da idade média do cangalheiro, imortalizado pelos Monty Python no magnífico Quest for the Holy Grail, o que faz muito mais sentido uma vez que todos os pacientes que Frank assiste no livro morrem, excepto um traficante de droga, que talvez merecesse morrer.
Por Um Fio deu origem a um filme homónimo de Martin Scorsese, que eu aconselho vivamente a ver, que segue, de forma bastante fiel, o conteúdo do livro. Quanto à forma não podiam ser mais dispares: Scorcese filma com planos lentos, a banda sonora, com o tema principal de Van Morrison, T. B. Sheets, arrasta-se pelas ruas de Nova York tal e qual como a ambulância velha com que Frank e os seus parceiros patrulham a noite dos drogados, prostitutas, traficantes, bêbados e todos aqueles que a Big Apple rejeita. Quanto ao livro, este é escrito de forma vertiginosa (lê-se num ápice), segundo a perspetiva de um homem acabado, a caminho da loucura induzida pelo stress, que bebe álcool e café para se acalmar. Não é, sem dúvida, o típico bêbado que se arrasta e vomita mas um homem que apesar de beber não consegue por de lado a enormidade da sua tarefa e os sonhos de salvar o mundo, uma pessoa de cada vez, vão dando lugar à certeza de que o mundo não pode nem quer ser salvo.